O que mudou esta semana na economia digital da África Ocidental

A última semana trouxe sinais importantes para quem trabalha com tecnologia, empreendedorismo e transformação digital na África Ocidental. Alguns são especialmente relevantes para a Guiné-Bissau: a continuidade da Starlink, o aparecimento de novos mecanismos regionais de apoio às startups, a evolução da regulação da inteligência artificial e os investimentos que começam a ligar conectividade, cloud e energia.

Mais do que anúncios isolados, estas mudanças revelam uma direcção clara: os projectos digitais estão a ser cada vez mais avaliados pela sua capacidade de funcionar em condições reais, proteger dados, operar além das fronteiras e demonstrar resultados económicos.

Starlink pode continuar a operar, mas a autorização ainda é provisória

A Autoridade Reguladora Nacional das Tecnologias de Informação e Comunicação prorrogou até 31 de Dezembro de 2026 a autorização provisória concedida à Starlink Guiné-Bissau.

Segundo a ARN-TIC, a decisão pretende garantir a continuidade do serviço enquanto decorre a transição para uma autorização definitiva.

É uma notícia positiva para empresas, instituições e particulares que já dependem da Internet por satélite, sobretudo em zonas onde as ligações terrestres continuam limitadas. Contudo, a palavra mais importante continua a ser “provisória”.

Depois de Dezembro, poderão surgir novas condições comerciais, técnicas ou regulatórias. Por isso, empresas que instalam e prestam assistência a equipamentos Starlink devem evitar garantir ao cliente condições que não controlam.

Para a Nô Kunsi Digital, isto significa continuar a prestar serviços de instalação e assistência técnica, mas com contratos claros. A venda do equipamento, a instalação, o suporte e o fornecimento do acesso à Internet devem aparecer como componentes distintas. Também deve ficar explícito que a NOKD não é uma operadora de telecomunicações nem representante oficial da Starlink.

A CEDEAO quer transformar startups locais em empresas regionais

Entre 21 e 30 de Setembro, a CEDEAO reuniu 60 startups na segunda edição dos ECOWAS Startup Awards, em Abuja.

As empresas seleccionadas actuam em áreas como fintech, saúde, agricultura, educação, turismo e tecnologias ambientais. Os três principais prémios são de 30 mil, 20 mil e 15 mil dólares.

No entanto, o aspecto mais interessante do programa não são apenas os prémios. A CEDEAO pretende criar uma academia digital permanente para startups, empreendedores e responsáveis por políticas públicas. O programa também aponta para uma meta de cinco milhões de dólares em negócios, embora esse valor seja, por enquanto, um objectivo e não financiamento já garantido.

Segundo a CEDEAO, a intenção é ajudar empresas locais a ganhar escala, entrar noutros mercados e participar em cadeias de valor regionais.

Esta mudança deve influenciar a forma como incubadoras e programas de empreendedorismo trabalham na Guiné-Bissau. Já não basta ajudar uma equipa a construir uma aplicação e preparar uma apresentação. As startups precisam de conseguir demonstrar que têm utilizadores, receitas ou impacto verificável, processos internos minimamente organizados e capacidade para entrar noutro país.

Não foi possível confirmar publicamente a presença de uma startup guineense entre as 60 seleccionadas. Isto deve ser encarado como um alerta: os programas nacionais precisam de preparar melhor os empreendedores para concursos e oportunidades regionais.

O Gana começa a definir como pretende regular a inteligência artificial

O Gana está a adoptar uma posição pragmática sobre a regulação da inteligência artificial. Em vez de aplicar as mesmas regras a todas as utilizações, o Governo pretende distinguir sistemas de baixo risco de soluções que podem afectar directamente a vida das pessoas.

Uma ferramenta experimental utilizada por estudantes, por exemplo, não deve ser tratada da mesma forma que um sistema de IA usado para aprovar crédito, seleccionar candidatos a emprego ou apoiar decisões médicas.

O ministro responsável pela transformação digital afirmou que o país pretende regular os riscos e os danos sem bloquear a inovação. A abordagem integra a estratégia nacional de IA do Gana e inclui competências, infra-estrutura, governação de dados e utilização responsável da tecnologia. A posição foi noticiada pela Ghana News Agency.

Embora ainda não seja uma nova lei, esta orientação poderá influenciar outros países da região.

Para empresas como a NOKD, a principal lição é simples: uma proposta de inteligência artificial já não deve explicar apenas o que a ferramenta consegue fazer. Também deve indicar que dados utiliza, onde esses dados ficam armazenados, quem valida os resultados e como uma decisão pode ser contestada.

Esta precaução será particularmente importante em produtos relacionados com recrutamento, serviços financeiros, saúde, estatística pública e governo electrónico.

Nigéria prepara centros de dados para cloud e inteligência artificial

A USTDA, agência norte-americana dedicada à preparação de projectos de infra-estrutura, vai financiar um estudo de viabilidade para dois centros de dados na Nigéria, localizados nos estados de Lagos e Delta.

Os centros deverão ser preparados para suportar serviços cloud e cargas de trabalho de inteligência artificial. O estudo avaliará a viabilidade técnica, financeira e operacional do investimento.

É importante não confundir esta fase com o início da construção. O que está financiado é o estudo, não os centros de dados propriamente ditos. Ainda assim, trata-se de um passo concreto para transformar uma intenção em projecto financiável.

De acordo com a USTDA, a iniciativa será a primeira fase da plataforma AFRIDATA, concebida para desenvolver infra-estrutura digital em vários mercados africanos.

Para a Guiné-Bissau, a existência futura de centros de dados mais próximos poderá reduzir a latência e oferecer novas opções de alojamento. Mas também poderá criar uma nova dependência regional em relação à Nigéria.

A oportunidade mais imediata para empresas guineenses não está na construção de centros de dados. Está na migração para cloud, segurança, organização dos dados, backups, recuperação após falhas e integração de sistemas.

A economia digital também precisa de electricidade

A Nigéria colocou em funcionamento comercial um fundo de 300 milhões de dólares destinado a projectos de energia renovável distribuída.

O Nigeria Distributed Renewable Energy Fund apoiará mini-redes, sistemas solares e outras soluções destinadas a comunidades e negócios com acesso limitado ou pouco fiável à electricidade. O fundo é promovido pela NSIA, Africa50 e Sustainable Energy for All.

A principal mudança é que o mecanismo passou da fase de estruturação para a fase de mobilização e aplicação de capital. Os promotores apresentam-no como um modelo que poderá ser adaptado a outros mercados africanos. Mais informações estão disponíveis no comunicado da NSIA.

Este investimento recorda uma realidade frequentemente ignorada: não existe transformação digital sustentável sem electricidade estável.

Uma escola pode ter computadores, mas não consegue utilizá-los regularmente sem energia. Uma clínica pode ter Internet, mas não pode depender de uma ligação que desaparece sempre que falta corrente. O mesmo acontece com pagamentos digitais, servidores, sistemas de gestão e redes Wi-Fi.

A oportunidade para a Guiné-Bissau não está em copiar os grandes investimentos da Nigéria ou do Gana. Está em traduzir estas tendências em serviços mais pequenos, práticos e adequados às limitações locais — mas preparados, desde o início, para crescer.